Apresentação

      Desde meados do século XIX o homem canaliza a sua criatividade por diferentes caminhos. Aparecem, então, a fotografia, o cinema, o grandes salões de exposições internacionais, a estrada de ferro, o carro; e entre tantas modas, a de enviar e colecionar a nova "correspondência sem o invólucro protetor do sigilo": o cartão-postal.
     Os cartões serviam para construir a individualidade da burguesia, dar status, comprovar viagens - realizadas no momento em que tempo e velocidade mudavam a vida e a visão do mundo - para enviar lembranças, dar parabéns, falar de amor, amizade; e, sobretudo, para colecionar autógrafos. Álbuns e caixas, onde se indicava o nome do proprietário e o tema tratado eram especialmente desenhados para acondicioná-los.
     Hoje, há quase um século do período áureo, este interesse tem outros objetivos e outros colecionadores: ontem, o importante era receber os cartões, hoje é colecionar tipos e temas diferentes. O colecionismo de então, virou uma reflexão sobre um momento da nossa história, o cartão efêmero, documento impregnado de conteúdo sócio-cultural.
     Arquitetos, historiadores, marchands, figuras de destaque na cultura mostram e procuram nos cartões que colecionam, ver como amavam nossos avós, como era aquela cidade, aquela rua, aquela praça, qual era a moda, a atividade preferida, a linguagem visual, a escrita que usavam, a técnica empregada para a reprodução da imagem, o remetente e o destinatário; enfim: as manifestações de todos os segmentos da vida humana de uma época.
     No 1o. Seminário de Fotografia e Memória, realizado no Solar Grandjean de Montigny, em 9, 11 e 16 de abril de1985, muito se falou da importância do cartão e ficou clara a necessidade de mostrar ao público este precioso material cujo conjunto constitui, sem dúvida, um rico filão iconográfico.
     Este desejo, unido a realidade da criação da Associação de Cartofilia do Rio de Janeiro, permite hoje, graças ao esforço e apoio dos seus membros, realizar a mostra que inauguramos.
Irma Arestizabal
Fascínio & memória
     A Associação de Cartofilia do Rio de Janeiro, ao realizar sua primeira amostra de cartões-postais, subordinou-a ao tema: FASCÍNIO & MEMÓRIA. Talvez nenhum outro defina com mais propriedade os motivos que tornam estes pequenos retângulos, vetores de gravuras ou retratos, alvo de tanta estima e procura por parte dos colecionadores espalhados, aos milhares, por todo o mundo.
     Não pode atribuir-se este atrativo somente à ilustração: por vezes as figuras não expressam alegrias, nem sempre a beleza está presente ou a qualidade gráfica merece elogios. O certo é que, a mesma imagem reproduzida em diferentes lugares, por outros meios de divulgação, deixa de despertar idêntico desejo de realizar esforços para obtê-la, conservá-la, dedicando-lhe o carinho especial que só os colecionadores sabem oferecer aos objetos de sua predileção.
     Na verdade, nos postais percebem-se parcelas da condição humana. Homens trabalharam em torno deles: interpretaram a realidade, recolheram as aspirações e maneiras de viver da sociedade, optaram por determinados aspectos da vida social, inscreveram fragmentos dos ambientes que os cercavam numa paisagem que uniu gerações, os passos do povo nas ruas, a praça da música domingueira das filarmônicas.
     Sem dúvida, outros meios de divulgação revelam também o mesmo conteúdo humano. Porém, não com tanta extensão e densidade. Nenhum deles esteve tão ao alcance do grande público quanto o cartão-postal na época de seu fastígio. Nem proporcionou, com tão fácil manuseio, a profusão de imagens de tudo quanto gerações sucessivas pensaram e realizaram, de regiões geográficas e aglomerações urbanas em todos os quadrantes do globo, e das populações que nelas habitaram, com seus costumes e afazeres peculiares. O cartão-postal, entrando na intimidade de cada sociedade através das ilustrações, deu aos homens uma visão integrada do mundo inteiro.
     Criou uma linguagem própria que o tornou perene.
     Registrou o contemporâneo para os contemporâneos, mas ganhou aquele toque de eternidade que hoJe se descobre e bendiz. Antônio Miranda acentua: "O que parece inabalável é a permanência da instituição 'cartão-postal' nas formas de comunicação humana, embora ela vá se amoldando às novas exigências, às novas tecnologias, aos novos comportamentos, às modas e valores cambiantes. Uma coleção espelha este fluir do tempo. E, à sua maneira, uma busca do tempo perdido, de deter o fluxo de tempo, de reconquistá-lo".
     Mas os postais também cumpriram sua destinação prática: foram meios de manifestar sentimentos, impressões, votos de felicidades. Criaram um convívio mais ameno para as pessoas que se correspondiam. Integraram-se na vida quotidiana de quem os utilizava ou possuía, registrando a passagem de alguém pela Terra, com todas as angústias e esperanças, dores e alegrias… Que mundo de reflexões não ocorre à mente quando, no folhear de abandonado álbum de velhos cartões-postais, depara-se com pequena quadra, em que Dona Tonheta guardou seus sonhos de moça, vividos em Cachoeira d'Anta, oitenta anos atrás:
"De minha vida os albores
Lembranças este álbum encerra
Dias felizes de amores
Passados em minha terra"
     Ou quando se lê as palavras de Carolina ao seu caro Jacinto: "Não te rales, porque ainda há tempo de sermos felizes".
     Outras mensagens, entretanto, não possuem caráter sentimental: externam opiniões sobre determinados lugares ou fatos, que, examinados, podem revelar aspectos significativos da vida sócio-econômica de uma época ou região. Como, aliás, fez Gilberto Freyre em um de seus livros a respeito da integração de imigrantes portugueses à Amazônia, através de cartões-postais enviados a famílias e amigos. Foi exatamente para Lisboa, que em 1904, um visitante do Brasil enviou cartão no qual dizia: "São Paulo, cada vez mais bonita. Negócios ruins: Nas ruas grande movimento de gente sem dinheiro". Não estariam retratados emuma simples frase, lançada para além do Atlântico, os efeitos da crise cafeeira, que levaria ao Convênio de Taubaté, em 1906, durante o governo de Rodrigues Alves?
     Por tudo isto, os cartões-postais que chegaram aos nossos dias, conservados por antigos colecionadores, são mensagens que o passado nos enviou, impregnadas de vida e recordações.
     FASCÍNIO, encanto de imagens e de palavras para quem alcança o sentido que encerram. Objetos feitos e deixados pelos homens, portadores do passado, do passado do presente, assim como os cartões modernos o serão do passado do futuro. Sentido que aos colecionadores, com dignidade, cabe reconhecer.
     Cândido Mota Filho diz-lhe suas memórias que as cidades vão "crescendo, crescendo e o seu passado se afundando nos alicerces dos arranha-céus". Assim é com todo o passado da humanidade e até mesmo com o nosso, tão pessoal. Vai afundando, afundando e, quando se dá conta, jaz soterrado pelas construções mentais que erguemos, pela vida atormentada que levamos. "Felizmente - diz Fustel de Coulanges - o passado jamais morre completamente no homem, o homem pode talvez esquecê-lo, mas sempre o guarda em si. Porque ele é, em cada época, produto e resumo das épocas anteriores. Se ele descer em sua alma, pode reencontrar e distinguir estas diferentes épocas, de acordo com o que uma delas deixou nele".
     Só pode ser destruído o legado material de outras épocas. Destruí-lo, seria, talvez - e assim pensa Simone Weil - cometer o maior dos crimes, justificando, tornar-se a conservação de seus remanescentes uma idéia fixa. Quem sabe, a idéia dos colecionadores.      Os cartões-postais conduzem o passado no tempo; documentos, monumentos, neles palpita toda uma sucessão de processos inovadores de impressão; recolhem estilos artísticos e as metamorfoses que sofreram mostrando em suas ilustrações todo o mundo pretérito.
     "Tudo neles está gravado - já dissemos alhures - a cidade de outrora, a paisagem destruída, o espírito da sociedade, os ideais de beleza, a guerra e a paz, o rei e o plebeu, o povo em seu trabalho, as modas, o transitório e o permanente, a nudez desvelada, o santo e a 'cocotte', os meios materiais de vida, as artes e as ciências, o indivíduo e a multidão, os costumes típicos, a realidade e o sonho, o anônimos que animavam as ruas e deixaram o mundo dos vivos sem jamais saber que um simples cartão-postal os eternizara em um gesto fugaz e corriqueiro".
     Um passado que todos levavam perdido nos desvãos profundos do próprio ser, dormia abandonado, mas ressurge agora resgatado de esquecimento pelos atuais colecionadores, em cada um destes pequenos cartões, que assumem a missão de MEMÓRIA, ao trazê-lo à superfície das marés das recordações.
     Memória que fascina, que é arte e testemunho, eis a síntese desta mostra, que não poderia encontrar abrigo mais acolhedor do que o Solar Grandjean de Montigny, coberto pela pátina da História, também testemunho e arte do nosso passado, imóvel em sua majestado e beleza, vendo fluírem os séculos e as gerações.
Elysio de Oliveira Belchior

[Fascínio]