NOIVADO
EM SANGUE
Esse poemeto se refere à morte da
flor masculina de uma planta: a Valisnéria! Impressão
colhida lendo “A Inteligência das Flores”, de Maurice Maeterlinck.
Valisnéria!
Hidrocaridea planta,
Em núpcias, trágicas, românticas,
Ao nenúfar, pedindo
A graça...
É a flor submarina, em filamentos,
Que, ao morrer,
Num gesto de heroísmo,
Perpetua
A raça!
Existência fugaz!
Erva aquática, perdida,
Cresce e cresce...
Em o seio profundo dos causais,
Na febre de um torpor, sem luz, nem vida!
Das núpcias,
O momento se aproxima;
É a hora fatal!
Conjugação... No talvegue das águas,
A fêmea flor emerge, e do pedúnculo
Desenrola, fio a fio, a espiral.
Num tálamo encanado,
De mil cores,
Vão morrer sonhos...
Metempsicose em flores!
E os pistilos palpitam pelos noivos
Como, em gôtas de orvalho, crescem goivos!
No hastil mui curto, perto,
O estarme, enamorado,
Oscila... E se balouça...
Volve, através o Sol,
Que, a limfa doira e banha,
Fitando os gineceus,
Eleva-se também...
Anseio ou desespero!
O beijo, espelho d’alma desses pólens,
É um iman, sopro ignoto, da volúpia,
Na Quimiotaxia, vaporosa,
Viva...Apanágio das transformações!
E a flor viril de uma haste a mais se inclina,
É a sede do imprevisto que a fascina!
O instante,
Na luz,
Margeia o sonho...
A comunhão de estames e pistilos,
Então, se faz mister;
Nesse himeneu de trágicas venturas,
Paira o imprevisto:
Um drama...
Ardências de vencer...
Fatalidade atroz dos seres vivos!
Em toda célula animal ou planta
A liberdade impera.
E a flor se queda,
Hesita...
E rompe, num momento,
Os laços que a torturam,
Caindo, semimorta,
Em meio das corolas,
Nos braços da quimera!
Fecundação sublime!
O pecado da carne - o amor redime!
Noivado em sangue!
Os estames, assim, noivos felizes,
Entre gozos fugazes
Estertores...
Nadam, ainda, ao lado das esposas,
Descuidadas, belas,
Num misto de prazeres e de dores!
Está feita a união:
Pistilos fecundados,
Amaram...
Quando amados,
Encerram-se as corolas...
É a gênese da planta,
Adormecida;
- A morte, a vida;
Os frutos novos da reprodução!
A esposa é mãe;
Fechando-se a corola,
Às profundezas,
De novo,
Desce e desce...
Amor! Paixão ingente!
Enquanto dos estames,
Já cadáveres,
Cresce e cresce...
A procissão dos mortos,
Levados na torrente.
E a lida recomeça; o drama continua;
As águas vão correr – Valisnéria flutua!...
É que, na vida celular
Dos seres,
Há beleza...
Desdobrado o coração,
No seio das espécies,
Sublima!...
Soluça e canta
A Natureza!
Fonte: Pedro Hercílio Luz, “Lagrimas e Risos”,
Edição do Autor, Rio, , s/d
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