CHUVA DE BOTTONS

Samuel Gorberg

    Durante a campanha presidencial dos Estados Unidos em 1876 ocorreram tentativas de usar o celuloide, recém descoberto, para a produção de pequenas medalhas, mas nesta ocasião o celuloide era muito frágil e a idéia foi então abandonada.
    O button no formato circular foi pela primeira vez patenteado pela firma Whitehead & Hoag Co. de Newark, N.J., EUA em 1896, sendo usado o celuloide como uma fina e transparente cobertura para proteger o papel no qual a imagem era impressa. A intensidade da disputa entre as chapas dos candidatos William McKinley / Hobart e William Jennings Bryan / Sewall na campanha presidencial de 1896 e entre as chapas dos candidatos William McKinley / Roosevelt e William Jennings Bryan / Stevenson na campanha presidencial de 1900 proporcionou à W&H enorme produção de buttons, bem como irradiou a fabricação por demais empresas como a American Art Works, de Ohio e Bastian Bros. de Nova York, entre outras. Esta última posteriormente expandiu seus horizontes adquirindo a W & H.

    O uso intensivo desta midia em propaganda nas campanhas presidenciais nos EUA encontrou eco no Brasil. Os mais antigos buttons de propaganda política brasileira conhecidos são os da campanha presidencial de 1910, que teve como oponentes o marechal Hermes da Fonseca e Rui Barbosa, tendo o marechal sido eleito o 9º presidente do Brasil. A Casa Standard, que na época desenvolvia grande atividade publicitária, divulgando em várias midias os seus “clubs” (que eram semelhantes aos consórcios atuais), produziu buttons dos dois candidatos, atendendo à conveniência partidária de seus freguezes.

             

    Por ser de baixo custo, o button presta-se como souvenir de eventos e exposições, tendo sido muito utilizado, nos EUA, no início do século XX, com esta finalidade.
    Segundo Roberto Dualibi, “o button é uma afirmação, uma forma de adesão, uma declaração de quem você é, o que pensa, a quem apoia. Não é mera propaganda, como a camiseta, que transforma seu portador em “outdoor” ambulante”.
    Na opinião de Heleno Berardi, Diretor de Criação da Agência CASA COMUNICAÇÃO, “o button é uma mensagem que o usuário realmente assina. O tamanho pequeno também dá uma certa intimidade à esta mensagem. Não é algo que você está gritando para todo mundo, mas para quem está próximo. Uma confissão muito pessoal. Acredito que o button seja uma das peças de maior convicção ideológica por parte de quem o utiliza. Por estar preso geralmente na altura do peito, também aceita interpretações de orgulho em manifestar tal mensagem”
    Por todos estes aspectos, o button tem sido muito usado, até hoje, como midia de propaganda política.

               


    O depoimento de Hiran Castello Branco relembra o button “Sou Fiscal do Sarney”. “Este talvez seja um dos buttons mais famosos no cenário da comunicação política no Brasil. A idéia foi do publicitário Marcelo Magalhães, à época dono da MM Propaganda e hoje sócio do núcleo institucional da Giacometti. Marcelo teve senso de oportunidade e captou o sentimento popular gerado com o plano cruzado, do ministro Funaro. O momento de euforia patriótica catapultado pelo desejo de se ver livre da inflação fez com que o Brasileiros portassem o button, transformando-se em promotores de venda do plano cruzado, doublês de fiscais e anúncios ambulantes.”

    A importância da integração do usuário ao que está exposto no button é explicitada em vários depoimentos:

    “Buttons indicam uma afinidade muito grande, uma convicção política ou uma paixão por uma banda, por exemplo. Se você está usando um button, é porque realmente acredita no que está escrito ali” (Fabio Seidl, redator e diretor de criação da 4 x 4 Publicidade)

    “O button é uma espécie de anúncio testemunhal – com as vantagens de não precisar pagar cachê e de se ter a certeza de quem o utiliza acredita piamente no conceito que está vendendo” (Marcos Pedrosa, diretor de criação da Central Globo de Comunicação).

    A finalidade de envolver a equipe, integrando-a totalmente aos objetivos, faz com que a Casa & Video produza buttons para cada evento especial de venda.

    O uso de mochilas pelos jovens, decorando-as com buttons, abre novas perspectivas para a propaganda de produtos nesta midia. Mas, como alerta Reynaldo Gondim, redator da NBS, “Não é uma midia adequada a qualquer produto ou serviço. Acho dificil, por exemplo, alguém prender na mochila um button com a marca de remédio para hemorróidas. Para o cliente que deseja usar esta midia, aqui vai uma sugestão: coloque a sua marca como coadjuvante. Ou seja, poucas pessoas gostariam de ter um button escrito: “Pneu é Pirelli”. Mas muitas pessoas gostariam de um button com a foto de um jipe imponente, mesmo que junto estivesse o logotipo de um fabricante de pneus”.

    A colocação de buttons em mochilas é também abordada por Sérgio Martins, redator da Casa da Criação:

    “Ao contrário da camiseta, a pessoa consegue de fato usar um button sem sentir-se um outdoor ambulante. Por isso, o button acaba sendo utilizado para compor um estilo, para afirmar uma personalidade, como nas mochilas dos adolescentes. Em alguns casos, isso é explorado conscientemente pelos anunciantes – muitas marcas jovens já investiram em buttons com designs interessantes. Em outras situações, mesmo que involuntárias, o button vira “cult”.

    Nesta linha de raciocínio publicitário, Coca Cola, Bob’s e Macdonald’s continuamente desenvolvem buttons, para alegria dos usuários e colecionadores.



    O desenvolvimento teconológico na década de 1920 introduziu a impressão diretamente no metal, permitindo a produção de buttons com esmerado acabamento.
Como expressa Luiz Fernando Dabul Garcia, Diretor Nacional do Curso de Comunicação Social da ESPM:

    “Buttons são assim. E quem tiver o bom senso de fazê-los e o bom gosto de concebê-los, terá sempre uma chance enorme de ver sua marca ou sua idéia exposta, orgulhosa, pelos seus declarados fâs ou pelo menos pelas pessoas que fazem dos buttons seu adorno e sua expressão de personalidade”.


Texto:

Samuel Gorberg
Pesquisador das Estampas Eucalol e Liebig. Editor do boletim da ACARJ.


Coleção:

Margarida Menezes
Profª Emérita da UFRJ. Autora do livro "Reviver: um século de figurinhas".

Roberto Pedroso
Médico e Colecionador. Conhecido como o homem das 1001 coleções, segundo o boletim AFNB/Brasília.

Fonte:

IHGB - Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro

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