ENTREVISTAS COM COLECIONADORES

Paulo Bodmer

Paulo Bodmer, brasileiro, contribuiu, sob vários aspectos, para que este trabalho crescesse em conteúdo: como professor de método e técnicas de pesquisa deu sugestões importantes no tocante à formulação e à ordem das perguntas integrantes da entrevista; como pessoa conhecedora do tema se dispôs a tirar dúvidas e como colecionador forneceu informações preciosas.

- Qual é a sua profissão?
- Sou professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

- Quando e como iniciou a sua coleção?
- De todas as coleções de artes gráficas, que faço, a de ex libris foi a que apareceu mais tarde. Isto se deve ao fato de que, no Brasil, não basta ter dinheiro e querer ser colecionador. Simplesmente," você não vai encontrar nada. Há muito tempo que, por aqui, o ex libris está "incubado". Assim, eu comecei a colecionar ex libris por pura sorte. Um dia um livreiro me fez oferta. Acho que corria o ano de 1990...

- Qual a quantidade de EX LIBRIS que possui?
- Não gosto desta pergunta. Em termos de coleção, quantidade não quer dizer nada, o que importa é qualidade, que é Sinónimo de arte e raridade. Não sei quantos ex libris tenho, nem quero saber. Mas possuo hoje, entre outros, o material dos dois mais ilustres colecionadores desta arte miniatura. Trata-se da coleção de Manuel Esteves. Aliás autor do único livro publicado no Brasil sobre o assunto, e do J. Leite, que foi, durante 40 anos, um dos maiores livreiros do Brasil.

- Que tipo de EX LIBRIS coleciona?
- EX LIBRIS pode ser organizado com figuras, brasões, alegorias, paisagens etc., e portanto, divididos em armoriados ou heráldicos, paisagísticos, alegóricos, musicais, religiosos, comuns, mistos e outros, sendo a sua impressão em xilogravura, água forte, offset, gravura em aço e talho doce, litografia ou zmcografia etc. Se sendo generalista, a gente já não encontra nada, imagina sendo especialista, colecionador de um tema especifico, ai mesmo é que não vai encontrar nada.

- Qual a sua definição de EX LIBRIS?
- EX LIBRIS é uma etiqueta gravada ou impressa, usualmente decorada, de dimensões variáveis, que se cola na primeira página interior da encadernação, para indicar a propriedade pessoal de livros. A minha definição é a mais simples possível: os ex librís são brasões do espirito, não de qualquer um, mas daquele em que a dimensão é mais ampla.

- Qual o mais antigo EX LIBRIS de seu conhecimento?
- Conheço o de Hildebrando Brandenburgo, de Biberach, uma gravura em madeira, tendo um anjo a segurar um brasão de armas e colorido à mão por volta de 1480 e também o do rei da Boémia, o Ex Libris armoriado, representando um leão com dois rabos, de Georgis de Podrebrady, falecido em 1471. Juntamente com o ex libris do alemão Johannes Knabensperg, aliás Igler, que eu não conheço, e onde, segundo dizem, há a figura de um porco espinho, formam os 3 mais antigos ex libris de que se tem notícia.

- Possui EX LIBRIS próprio?
- Você conhece o provérbio "Casa de ferreiro espeto de pau?" Pois é, na minha coleção está faltando o meu próprio ex libris. Aproveito aqui para dizer o seguinte: quem quiser ter o seu próprio Ex Libris terá primeiro que imaginá-lo e só depois é que irá procurar o artista para desenhá-lo. O Ex Libris deverá ser o "retraio" do seu dono, isto é, a sua marca de posse consoante com o seu viver.


Pouco tempo depois o entrevistado resolveu mandar fazer o seu próprio exlibris produzido e desenhado por Bianca Giacomelli.

[Entrevistas]