INTRODUÇÃO

Postal/Convite tirado do cartaz da exposição "Recordando Portugal em Antigos Bilhetes Postais". Col. Klaus W. Gruner

        A história do bilhete postal encontra-se praticamente feita. As suas diversas expressões filatélicas correspondem a situações oficiais e a regras de comunicação por via postal. O aparecimento do postal ilustrado integra-se no processo de desenvolvimento da comunicação e dos correios. Surgiu para dar resposta à necessidade de fazer circular imagens.
        De um certo ponto de vista, a civilização da escrita, cujas origens remotam ao aparecimento do alfabeto sob qualquer forma de expressão gráfica, entra numa nova fase com a publicação sistemática de gravuras e depois fotografias na imprensa oitocentista. É como surgisse então uma civilização das imagens na qual hoje nós todos somos beneficiários e espectadores. Neste sentido, o aparecimento do postal ilustrado é apenas uma etapa da fome de imagens que caracteriza o mundo contemporâneo.
        As origens do “cartão mágico” situam-se na Alemanha, se bem que o primeiro inteiro bilhete postal tivesse surgido na Áustria no dia 1 de outubro de 1869. Antes da expansão dos finais do século, contudo, o postal teve de se afirmar no seu componente comercial, na organização das suas regras gráficas e artísticas e teve de encontrar um formulário escrito que o identificasse perante terceiros.
        A história do bilhete postal ilustrado em Portugal é mais tardia (1894). Surge nos últimos dezesseis anos da monarquia, nas vésperas da implantação da República. A novidade que representou justifica, de certa maneira, a multiplicidade de aspectos da vida política, social, econômica e cultural que quis retratar. Representou, logo à partida, um boom de informação que estimulou artistas, empresas tipográficas e colecionadores.
        Para Vicente de Sousa, o postal “sofreu as influências do gosto predominante e das condições de mercado de lucro fácil” ao ponto de “a própria arte” ter sofrido um desvio “para a decoração e os gostos mundanos”.

        (Portugal no 1º quartel do séc.XX documentado pelo bilhete postal ilustrado, Bragança, 1985, de autoria de Vicente de Sousa/Neto Jacob). No entanto, fatpres ligados à situação econômica portuguesa permitiram que o postal se tornasse um meio fácil de comunicação, um objecto de consumo acessível. Ficava mais barato enviar um postal do que remeter uma carta. Tornava-se um meio de poupança.
        Este facto paradoxal cria as condições para a proliferação de postais nas suas diversas formas decorativas, na variedade das suas imagens. Podemos afirmar, sem sombra de dúvida, que o postal ilustrado português é riquíssimo. Preenche os aspectos mais diversificados dos interesses dos seus consumidores. A diferença de gostos e de formações culturais, era saciada na sua apetência de imagens pela oferta que artistas, fotógrafos, editores e tipografias criavam.
De imagem em imagem se foi fazendo a reportagem do quotidiano, da realidade, da história, do espaço e do tempo. Nada escapa ao postal ilustrado.
        Por isso “Recordando Portugal em Antigos Bilhetes Postais” é uma forma de relação do nosso universo com as imagens e os processos históricos que, começando no século XX, nos ajudam à nossa identificação. É memória para portugueses. É também memória para brasileiros, os quais encontram, em Portugal uma memória comum ou, pelo menos, fragmentos dela.

Jorge Custódio



INTRODUCTION

        The history of the postcard is practically over. Its many philatelic expressions correspond to official situations and to rules of postal communications. The emergence of the illustrated postcard joins the development process of both communication and the Post Office. It arose as an answer to the need for allowing images to circulate.
        From a certain angle, the civilization of the written word, whose origins remount to the emergence of the alphabet – under any shape of graphic expression – enters a new phase with the systematic publishing of prints at first, and later on, of photographs in the press of the eighteen hundreds. It is as if a new civilization of images had come about from which we are all now beneficiaries and spectators. In this sense, the emergence of the postcard is only a stage of the hunger for images which characterizes the contemporary world.
        The origins of the “magic card” can be found in Germany, although the first complete set appeared in Austria on October 1st. 1869.
        Before its expansion at the end of the century, the postcard had to assert itself through its commercial aspects, the organization of its graphic and artistic rules, and had to find a written form which would allow for its identification before others.
        The history of the illustrated postcard in Portugal dates from a somewhat later period: (1894). It appears during the last sixteen years of the monarchy, at the eve of the installation of the new republic. The novelty it represented justifies in a certain manner the varied aspects of political, social, economical and cultural life they wished to portray. It represented, at the very start, na information boom that stimulated artists, typographers and collectors.
        According to Vicente de Souza, the poscard “suffered he influences of the predominant taste as well as the conditions dictated by a market that was looking for na easy profit” until “art itself” suffered a diversion towards “decoration and mundane tastes”.
        (Portugal in the 1st. Quarter of the XXth century documented by the Illustrated Postcard, Bragança, 1895 by Vicente de Souza/Neto Jacob).
        Facts linked to the Portuguese economic situation, however, allowed for the postcard to become na easy means of communication and a readily available object of consumption. It was less expensive to mail a postcard than a letter, thus it became a way to save money.
        This paradoxical fact brings about the conditions for the rapid growth in the publishing of postcards in its many decorative forms and variety of images.
        We can state therefore, without a shadow of doubt, that the illustrated Portuguese postcard is extremely rich. It fullfills the most diversified interests of their consumers. Different tastes and cultural backgrounds created a demand for images which was gratified by the creations presented by artists, photographers, publishers and typographers. Image by image a register of daily life, of reality, of history, of space and time was made. Nothing escapes the illustrated postcard. This is why “Recollecting Portugal Through Oldeen Postcards” is a form of relation between our own universe and the images and historical projects that, starting on the XXth century, helps us to identify ourselves.
        It is memory for the Portugueses, and also memory for the Brazilians who may find in Portugal a common memory, or at least, fragments of one.

Jorge Custódio


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